Uma mentira verdade

Ultimamente quando me perguntam “como você tá?” minha maior vontade sincera é responder: “tô bem, mas tô cansada pra caralho e de saco cheio de muitas coisas”.

Mas daí eu lembro que me falaram que o que vem depois do “mas” não importa muito. E no budismo também aprendi que a lei de causa e efeito é implacável, a gente recebe aquilo que pratica, e aquilo que pensamos está fortemente vinculado com o que somos em cada momento. 

Então tá. Eu tô bem sim.

Tô dormindo mal, arranquei todas as pelinhas da minha boca e dos meus dedos, aparentemente meu cortisol, aquele tal chamado “hormônio do estresse” tá malucão, mas eu tô bem sim.

Em dias assim, eu lembro muito do filme “O Divã”, de uma cena em que a protagonista fica sabendo que o ex-marido tá saindo com uma mulher mais nova e que ela considera mais ‘bonita’, ela vira e diz para a melhor amiga algo como “Quer saber? Nem ligo! Não tô mais nem aí pra ele” e a resposta da amiga é “Tá certa, é isso mesmo, nessas horas não tem coisa melhor do que mentir pra si mesma, amiga”.

Às vezes é a melhor saída mesmo, fora que tem aquela coisa de que uma mentira contada três vezes vira verdade. Vamos lá:

Tô bem e vai ficar tudo bem.

Tô bem e vai ficar tudo bem.

Tô bem e vai ficar tudo bem.

Vai sim.

#NMRK

Tudo vai ficar bem em breve, aguente aí e não se preocupe tanto.

Uma máquina incrível

Eu conheci uma mulher que costumava dizer que o ser humano era uma máquina fantástica, que se adaptava a tudo, tudo mesmo. Ela dizia que se uma pessoa perdesse os dentes do lado esquerdo, começaria a mastigar com o lado direito e vice versa, se perdesse os dentes dos dois lados, mastigaria com os da frente, que até sem dentes uma pessoa era capaz de comer, prova cabal do processo de adaptação tão extraordinário do ser humano.

É verdade, nós realmente temos um poder de adaptação impressionante, a gente se acostuma com o que é bom com muita facilidade, mas também se acostuma com o que é ruim e passa a ver aquilo como comum.

No processo adaptativo da minha vida eu me acostumei com bastante coisas, algumas boas e outras nem tanto.

Eu me acostumei com todo mundo me chamando de mau humorada e por um bom tempo vesti essa carapuça, até descobrir que ser bem humorada é muito melhor.

Eu me acostumei a não pedir ajuda para as pessoas, até descobrir que não preciso ser a rainha da autossuficiência.

Eu me acostumei a pensar que demonstrar sentimentos era fraqueza, até perceber que não preciso ser forte o tempo todo.

Eu me acostumei a pensar que alguém só gostaria de mim, se eu não me mostrasse por completa, até perceber que ninguém vai gostar se eu me apresentar incompleta.

Eu me acostumei a achar que eramos medianos, até perceber que somos incríveis sim, mas não somos máquinas, se fossemos com certeza travaríamos algumas vezes e o operador, já familiarizado com o sistema, saberia conduzir as coisas e fazer voltar para os eixos.

Talvez o que mais nos aproxime de uma máquina é que, se até elas, elaboradas com tamanha precisão e técnica, não funcionam sempre sozinhas, porque nós precisamos?

Que em 2017 caminhemos juntos, assim somos mais fortes.

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Vamos? 

*Imagem do jogo Machinarium

O vô Adelino

O meu vô Adelino tinha cara meio carrancuda, algumas pessoas achavam que ele era bravo, ele não era.

Ele me levava vestida de rosa para o balé, mas antes parava num bar e tomava uma dose de pinga para parar de tremer, ele era alcoólatra.

Uma vez ele foi internado para tratar o alcoolismo. Lembro de minha mãe contando de ir lá na instituição e o médico responsável dizer pra ela que meu vô não conseguiria largar a bebida, porque a base central do tratamento eram palestras e ele dormia em todas. Minha mãe não contou isso pra ele, ela disse que o médico tinha elogiado a sua evolução e que logo ele iria embora e curado do vício.

Eu e minha irmã escrevíamos cartas pra ele, pois não podíamos visitá-lo, as cartas falavam do quanto sentíamos saudade e que estávamos esperando ele em casa. Meu vô saiu de lá e o médico não botou fé na sua recuperação, mas ele nunca mais bebeu.

Meu vô esteve do meu lado em muitos momentos da minha infância, tenho lembranças dele rindo de disparates que eu dizia, respeitando que sempre fui mais sozinha e nunca me forçando a brincar com outras crianças, me chamando de “nina” e beijando minha bochecha, mesmo eu coçando quando a barba estava por fazer, ele sempre ria.

Ele era bem metódico e gostava das coisas em seus lugares, acho que aprendi isso com ele, hoje eu percebo muito dele em mim, pois me irrito com as mesmas coisas que ele se irritava: descuido dos outros com coisas minhas, desatenção, bagunça e falta de zelo.

Ele me ensinou que tudo tem seu lugar, que se pegou algo de alguém, deve devolver da mesma forma e no mesmo local. Me ensinou que a gente cuida do que é do outro, porque às vezes nós é que somos o ‘outro’ e queremos nossas coisas igualmente cuidadas.

Ele também me ensinou a lavar louça, dizia que para tudo tinha uma ordem: primeiro talheres (separado por tipos), copos, pratos, potes plásticos e panelas no final. Ainda hoje eu sigo o esquema dele, acho muito funcional.

Ele fumava um cigarro longo, da marca Luxor, fumava metade e guardava a outra, mas quando parou de fumar, porque teve câncer no pulmão, ele apelou para as balas. Ele sempre tinha bala com ele.

Meu vô não sabia pedir desculpa e quando dava alguma mancada com alguém, chegava de fininho e falava “quer uma balinha?”, era o jeito dele de se desculpar. Eu sempre aceitava as balinhas dele. Todo mundo aceitava.

Meu vô faria aniversário hoje, eu faço amanhã. Uma vez ele me disse que eu fui o presente atrasado dele e hoje eu sei que ele foi o meu presente adiantado.

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Eu e meu vô Adelino.

Meu método loser

Sempre fui meio loser, desde novinha. No parquinho, meu primeiro amor não gostava de mim, eu era a melhor amiga dele e chorei de decepção quando ele me contou que gostava de outra menina que era o meu oposto, óbvio.

No colégio sempre andei com as pessoas mais quietas, constantemente achavam que eu era tímida, mas não era, eu apenas não tinha vontade de interagir, sobretudo com os mais falantes, achava tudo meio besta. Uma das minhas melhores amigas era a pessoa mais popular do colégio, mas as pessoas mal sabiam que éramos amigas, lá a gente mal se falava, eu odiava os amigos dela e ela os meus.

Quando meu primeiro namorado me pediu em namoro achei que fosse algo como dos filmes Sessão da Tarde, do cara gato que aposta que vai namorar a esquisita, mas não achava que ele fosse se apaixonar por mim no final, como nos filmes. Mas ele realmente queria me namorar, eu fiquei meio desconfiada por meses, até que desisti de achar que iam apontar pra mim e rir. Eu terminei com ele por telefone, no fim das contas ele só queria jogar bola, eu queria outras coisas.

Na faculdade não foi diferente, nunca fui do time que ia pro bar, dos festeiros, das baladas e do JUCA, fui bem antissocial. Talvez porque pagasse pela faculdade e sabia da grana que me custava, então levava a sério na medida do possível. Nunca fui do tipo divertidona que topava tudo. Nunca topei e ainda hoje não topo.

Se alguém me convidar para algo, eu tenho meu lide básico: quando, onde, quem e porque, e com base nisso tudo eu estabeleço minha rota de fuga e possíveis problemas que surgirão do convite em questão.

Pode parecer absurdo e cansativo todo esse método, mas eu faço ele em minutos e muito rapidamente, a gente normalmente aprende bem aquilo que pode nos preservar e poupar de perrengues e é assim que eu funciono.

Não, não sou maluca e nem acho minhas linhas de pensamentos exageradas, é como eu sou, como eu aprendi a lidar com meus problemas. Se antes, por ser mais controladora, eu simplesmente declinava convites por não conseguir saber como seria, hoje eu me cerco das informações que posso ter e assim eu sigo fazendo minhas coisas, sigo sendo sociável, me divertindo (nem sempre) e interagindo.

Tudo isso me ocorreu porque essa semana tive um sonho que me fez lembrar que na faculdade eu não ficava no bar, mas ficava bebendo café/chá ruim num prédio distante de pessoas e então lembrei que no ginásio eu matava aula para ir na biblioteca ou no sebo comprar livros e discos. Eu sempre meio que fugi de muita interação. Se me arrependo? Não mais.

Já lamentei não ser uma pessoa mega expansiva e super popular, ou então a pessoa mais sorridente do ambiente, hoje eu aceito quem eu sou e até gosto bastante da minha história até aqui, é uma história meio loser talvez, mas é a minha. E eu sou assim, sabe? Pelo menos por enquanto.

Aguarde, reconectando…

Essa madrugada eu tive um pesadelo horrível, desses que você acorda sem conseguir identificar a realidade e acha que ainda está submersa na experiência ruim, sabe? Então, foi assim, daí que fiquei super assustada, meio abalada. Tentei dormir de novo, sonhei a mesma coisa, desisti de dormir e aos poucos minha cabeça resolveu que era um bom momento para mostrar sua força em me fazer sentir dor e então ela começou a doer como há tempos não doía e eu passei o dia na cama, meio achando que tinha levado uma paulada na cabeça, tentando entender o sonho e aprendendo, na verdade já aprendi, que uma boa noite de sono é essencial.

Toda vez que entro em crises de dormir mal ou tenho pesadelos, via de regra, já sei que tem algo acontecendo comigo, algum movimento interno que estou fazendo, ainda que inconscientemente, porque aquilo de que o “o corpo fala” é muito, mas muito verdade. Na real o corpo não apenas fala, ele gesticula, dá pistas, desenha, o danado faz de tudo para mostrar que “amiga, tem algo errado aí, precisa arrumar, tá chegando no limite”, mas a gente nem sempre escuta.

É trabalho, família, é a autoaceitação diária, é suportar pessoas e discursos babacas, é evitar tretas, fugir de comentar posts cretinos no Facebook, é autocobrança e assim a gente ignora o corpo como se ele fosse uma daquelas pessoas resmungonas dos pontos de ônibus.

O meu corpo dorme uma média de 7 horas por noite, de segunda à sexta pega 5 conduções públicas, trabalha 8 horas diárias, interage, me faz sorrir e chorar, me faz respirar até 10 e não xingar ninguém, me coloca em pé, fica sentado paciente enquanto faço Daimoku e segura as pontas na yoga, ele é incrível, mas as vezes a gente se desconecta e se perde um do outro, às vezes ele precisa gritar comigo, como fez hoje.

Eu estou num processo de reconexão com meu corpo, em escutar o que ele quer, o que e quando precisa, eu acredito que ele sabe exatamente o que é melhor pra si e estou tentando deixar ele mais solto, mais livre para decidir. Se ele está me mantendo viva e saudável por quase 35 anos, mesmo quando eu o ignoro, ele deve saber das coisas, até porque, quando eu não o escuto a bronca vem galopando, como pude perceber hoje.

Meu corpo não define quem eu sou, mas ele também é o que eu sou, ele é incrível e funciona redondinho, mas precisa ser escutado, assim como eu.

Talvez, para ser escutada, eu tenha que gritar, assim como ele fez, às vezes é preciso, é a única forma de ser notada em meio a tantos ruídos.

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Ilustração de Cloudy Thurstag

 

Será o Dramin?

Eu passei o dia mal, tomei Dramin e fiquei com uma tristeza profunda, dormi o dia todo, fiquei apática, mantive distância de conversar com as pessoas porque estava com dificuldade em travar um diálogo, só queria silêncio.

Acontece que isso me deu um cutucão, porque percebi que, com exceção dos finais de semana, acordo sem ânimo, não tenho vontade de sair da cama e só saio por obrigação de trabalhar. Será que isso está certo?

Diria que sim, afinal não nasci rica, mas será que viver com essa sensação está certo? Vai ser sempre assim?

Tenho a frequente sensação de que minha vida está prestes a começar, mas não começa, não deslancha. Sinto isso já faz tempo, um eterno preparo e enquanto aguardo, talvez o tempo esteja se esgotando.

Eu não sei o que fazer, de verdade. Não sei se é normal se sentir assim, porque eu meio me acostumei a domar minha tristeza, minha negatividade, mas será que todo mundo sente isso também? Na tentativa de me entender menos sozinha eu tenho essa dúvida. Será?

Como será acordar todos os dias, ou pelo menos a maioria dele, bem? Como é para vocês?

Gostaria que tudo isso fosse efeito do Dramin. Será?

Gaslighting? Cê tá louca!

De acordo com a Wikipédia, Gaslighting é “uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.”

É o popular “cê tá louca!”amplamente e comumente usado para desvalidar a posição e atitude de muitas mulheres. Se você acha que isso é papo de feminista maluca (opa, olha o gaslighting) vem cá, dá a mão que vou tentar explicar com funciona.

Quase sempre quem faz uso deste artifício são os homens, claro que têm exceções, mas eu estou falando da maioria aqui, ok? Então ok.

Sabe aquele amigo que tem uma namorada louca, maluca, pirada, surtada, meu deus como que ele aguenta essa mina? Então, grandes chances de rolar esse abuso aí. Porque vamos lá, quem aguenta efetivamente gente maluca, pirada, surtada por muito tempo? Claro que sempre há uma chance da pessoa ser mesmo maluca, mas para o caso de “minas loucas” recomendo cautela em comprar esse discurso.

A maravilhosa da Chimamanda Adichie já falou sobre o perigo de uma única história e, embora o viés seja outro, bem cabe aqui neste contexto. Duas pessoas, dois lados, duas histórias. Cuidado ao comprar história de minas que são gratuitamente loucas.

Li uma vez que nós mulheres, frequentemente nos justificamos que não somos loucas, mesmo quando não temos motivo para tal.

– Nossa moço, vim no banco e esqueci o cartão, mas não sou louca, viu?
– Nossa, tentei passar na catraca do metrô sem validar o bilhete, mas não sou louca, gente!

No máximo isso configura uma pessoa distraída, mas não louca. De onde vem esse medo de ser louca? Qual motivo desse pânico e as tantas justificativas, muitas vezes antecipadas, de que somos sãs?

A prática de desvalidar a mulher é histórica, são coisas que escutamos desde sempre, a fulana é louca, é histérica, tem falta de pinto, tem TPM, tem frescura, faz mimimi, é desvairada, uma pessoa sem controle enfim. A gente escuta tanto tudo isso, que acaba acreditando.

Frases como “nossa, era uma brincadeira, que chatice a sua” ou “ai como você é exagerada”, tem também “affe, mas você vê pelo em ovo”, tem uma muito boa, escutei bastante é o “como você é maldosa, não tem nada demais”. Enfim, tem uma variedade de frases que desestabilizam, impõe dúvida e faz com que a gente duvide de si mesma.

Se você acha que isso é exagero meu, faz uma busca aí na sua memória, talvez no seu circulo de amizades, com certeza paira uma mina louca nele e há grandes chances dela ser namorada de alguém, e há chances imensas de que o namorado dela que diga isso para os outros, que ela é louca!

Vou contar um caso próprio para ilustrar como funciona o abuso: fui numa festa com um cara que então era meu namorado, lá em determinado momento ele sumiu, fui atrás do dito cujo e encontrei ele sentado, dando selinho numa mina, mão na perna dela, proximidade e aquela coisa toda. Fui tirar satisfação com ele e adivinhem o que ele me disse?

– VOCÊ É LOUCA? EU ESTAVA FALANDO NA ORELHA DELA, ELA ESTAVA TRISTE PORQUE BRIGOU COM NÃO SEI QUEM! COMO VOCÊ É MALUCA, CIUMENTA, DESEQUILIBRADA!

Mas gente, eu vi, EU VI COM OS OLHOS QUE O FOGO HÁ DE CREMAR ele beijando a moça, mas me chamou de louca, maluca, que via coisa onde não existia, que era muito maldosa e preparem-se para a virada estratégica:

– SE VOCÊ FOI CAPAZ DE ENXERGAR ISSO, DEVE SER PORQUE VOCÊ É ASSIM, JÁ ME TRAIU OU TEM VONTADE, PORQUE NÓS VEMOS O QUE SOMOS. [tentei adaptar o ditado dele para me ver ryca, mas não funciona mesmo]

Preciso falar que eu terminei pedindo desculpa? Me achando a pessoa mais maluca da terra? Você pode até falar no auge da sua maturidade que eu fui muito bestinha, mas isso acontece muito mais do que você imagina, então amigo, cuidado, não seja esse cara, não desvalide as minas só para manter um discurso seu, não faça essas merdas e miga, enormes chances de que você não seja louca , vem cá, dá abraço ❤

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Sobre budismo e como brotar sentimentos

Há mais de um ano que venho praticando budismo, vinha frequentando reuniões, lendo bastante sobre e discutindo as ressalvas. No montante geral, me agrada muito mais do que qualquer outra religião e, embora não concorde com tudo, a parte positiva é imensamente maior.

Foi um passo difícil, porque tenho conceitos bem enraizados com relação a qualquer tipo de religião, mas me enchi de coragem e, pela primeira vez na vida, existe uma designação religiosa pra mim, eu sou budista.

Para quem não sabe, o budismo é uma religião/filosofia não teísta, ou seja, não acredita em nenhum deus, tampouco reza para Buda, como muitas pessoas acham, Buda é um estado de espírito que qualquer um pode alcançar, é atingir a iluminação. Eu posso e você também.

Especificamente eu sigo o Budismo de Nitiren Daishonin, e essa semana, numa dessas reuniões que participo, o tema foi gratidão e de como muitas vezes não somos gratos e como exercer esse sentimento é benéfico, ainda que nem sempre seja fácil.

Uma das dúvidas levantadas por uma pessoa presente foi a de que gratidão é algo que se sente, algo que “brota” mas, como qualquer outro sentimento, é espontâneo. Portanto, como fazer para ter essa tal gratidão com mais frequência? Como fazer ela brotar? Ninguém respondeu ao certo como fazer isso, o budismo, via de regra, não prega fórmulas, embora a oração praticada, uma espécie de mantra/oração, no caso o Daimoku, seja o mais recomendado.

Mas além de gratidão eu quero fazer brotar outros sentimentos, quero brotar mais confiança, segurança e amor e, queria também saber como mandar embora alguns tantos.

Só que eu não sei muito bem por enquanto. Eu faço como posso, tento me fortalecer, não apenas com a oração, mas de forma geral, fortalecer corpo e mente, acredito que assim serei mais capaz. Obviamente que não consigo sempre, sobretudo não consigo ser bondosa sempre comigo, não consigo exercer compaixão por mim mesma como consigo com outras pessoas.

Dias desses li em algum comentário, honestamente não lembro onde, que devemos nos tratar como tratamos nossa melhor amiga, é um ótimo parâmetro, achei bonito e agora tenho tentado responder às minhas tristezas e inseguranças pensando no que diria para minha amiga. Eu consigo ter compaixão e abraçar minhas amigas, eu consigo ser bondosa com os outros, mas eu quero fazer isso também por mim.

Quero conseguir me abraçar, para saber exatamente como sou e, quem sabe assim, lidar melhor comigo mesma e saber ser a voz interna que me acalma, saber ser autossuficiente para girar com equilíbrio no meu eixo e entender, de uma vez por todas, que quando eu me aceito, finalmente sou capaz de me transformar.

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Não são flores de cerejeira, não são de ameixeira, de pessegueiro e nem de damasqueiro e tudo bem, são bonitas mesmo assim.

“Não há necessidade de se comparar aos demais; é a sua vida. A questão vital é: o que realmente pensa e sente nas profundezas de sua vida? O budismo expõe o princípio da “cerejeira, ameixeira, pessegueiro e damasqueiro”, segundo o qual cada um tem características únicas, um princípio correlacionado de “revelar sua natureza intrínseca”. 

 

Flores de cerejeira são flores de cerejeira; e as de pessegueiro, são as de pessegueiro. Uma flor de cerejeira jamais se transformará em uma flor de pessegueiro. Nem há necessidade alguma de a cerejeira tentar isso, e seria lamentável se ela o fizesse.

 

Do mesmo modo, você não é ninguém a não ser você mesmo. Nunca será outra pessoa, por mais que deseje. O importante é que se torne o tipo de pessoa capaz de estimar, prezar e sentir satisfação em relação à sua própria vida, que é preciosa e insubstituível”

 

Daisaku Ikeda

Quero ser uma sem vergonha

Me ensinaram que quando a gente tropeça na frente de todo mundo, o ideal é, se tiver um relógio de pulso, olhar pra ele rapidamente, falar “nossa, estou atrasada” e fingir que o tropicão, na verdade, foi um início de corrida e sair correndo. Tudo isso para evitar aquele momento de vergonha.

Eu já fiz isso, eu também deixei de ir numa loja porque disse pra atendente “brigada, de nada”, daí fiquei com vergonha e não voltei mais. Eu já senti vergonha em dizer “não posso ir, não tenho dinheiro” e inventei qualquer outra desculpa. Vergonha em correr para pegar o ônibus/metrô e ficar naquele vácuo meio chato. Vergonha daquela corridinha torta no farol que ficou vermelho. Enfim, uma cacetada de vergonhas! Eu já senti vergonha de muita coisas, inclusive em ser como eu sou.

Todo mundo sente, eu ainda sinto, mas me esforço muito para não ter mais, quero perder a vergonha na cara, é uma das minhas metas, ser uma sem vergonha.

Eu comecei a fazer yoga e no primeiro dia, horas antes, tive mini ataque de insegurança e vergonha, um monte de coisas passando pela minha cabeça.

Será que eu vou ser a única gorda lá? E se eu não conseguir fazer nada e morrer de vergonha! Ai, meu deus, vou ficar ridícula usando aquelas regatas longas, que vergonha! MEU DEUS DO CÉU, TEM VESTIÁRIO, VOU TER QUE ME TROCAR E FICAR PELADA NA FRENTE DE OUTRAS PESSOAS, VOU MORRER DE VERGONHA, CERTEZA, CERTEZA!

Ok, tentei acalmar e lembrei dos chineses. Sim, os chineses. Na minha última viagem trombei com muitos deles, são incríveis, é quase uma experiência antropológica observá-los. Eles não têm vergonha de nada, são caras de pau natos, dignos sem vergonhas, eu explico.

Tiram fotos sozinhos, gritam, entram na frente dos outros e não ligam, fazem selfies sem qualquer receio de parecerem ridículos, com bicos e erguem a gola da camisa fazendo cara de mau, fazem fotos sexys com namorados alheios (uma senhora meio que debruçou no ombro do André e fez cara de quem estava pegando ele na foto), fazem poses bizarras, se vestem de formas excêntricas, cospem nos lugares sem se importar se as pessoas vão estranhar (ok, você pode achar falta de educação, mas há quem diga que a poluição na China é muita e causa pigarro, além disso, tem um lance de que a medicina chinesa diz que o que incomoda o corpo, deve ser posto pra fora, então eles cospem mesmo).

Os chineses são incríveis, seja para o positivo ou negativo, aparentemente a consciência própria de si mesmo é tão forte que, mesmo estando em outro ambiente, que não seja na China, eles seguem seus padrões, não se esforçam para se adaptar, fazem as pessoas se adaptarem a eles ou, bem, se não gostam, não é da conta deles. Sabe aquela coisa “o problema que você tem comigo é problema seu?” Então, é essa a impressão que fiquei.

Eu não quero forçar ninguém a se adaptar a mim e nem cuspir nas pessoas, mas quero ser sem vergonha como eles. Mas voltando, como disse, pensei nos chineses e fui para yoga. Cheguei lá, assinei a matrícula, paguei a mensalidade, subi no vestiário, me troquei e fui pra aula.

Não tinha só eu de gorda, uhuu, legal! Entrei, falei com a professora, ela me explicou algumas coisas e ressaltou que ali era tudo questão de respeitar o meu tempo, da minha forma e ainda falou que existiam posições que ela fazia e que eu nunca conseguiria fazer, e o inverso também era verdadeiro, teriam posições que eu seria capaz de fazer e ela não.

“Somos diferentes, Camila, temos que respeitar nossas diferenças”. Pronto, nesse momento que nem tinha começado, já estava apaixonada por yoga e esqueci a vergonha.

Eu suei horrores, não consegui fazer tudo, quase cai numas posições e em momento algum eu senti vergonha, estava tão centrada no que estava sentindo, no meu corpo e nos movimentos que não tive tempo de me sentir mal. Saí de lá acreditando que poderia fazer tudo, que era capaz de absolutamente tudo e eu sou, você também.

A vergonha te trava, te impede de fazer muitas coisas, como por exemplo, ficar 32 anos sem saber andar de bicicleta, a vergonha te limita, te diminui e tolhe experiências que poderiam ser fantásticas, a vergonha te fode e não deixa bilhete com telefone no dia seguinte, a vergonha é coisa do tinhoso.

Quero abandonar a vergonha, largar ela num cantinho por aí, quero ser tirana e mandar ela pra bem longe de mim e, de quebra, como os chineses, quero cuspir a vergonha pra fora, porque assim como a poluição, ela pode até entrar em nós, mas não precisa ficar, cospe e manda pra longe e, se alguém falar que é falta de educação, pensa no Shrek e no que aprendemos com ele: melhor pra fora, do que pra dentro 😉

 

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Foto do meu primeiro voo de bicicleta, me ralei, rasguei a calça, chorei involuntariamente e um monte de gente ficou me olhando, mas foi melhor ficar um mês com os joelhos doendo do que deixar de fazer algo por vergonha.

 

Se eu tivesse uma filha

Revirando umas fotos minhas antigas, encontrei uma com 19 anos e lembrei de como me achava feia, gorda, horrível e, como podem ver, eu era magra. Já na segunda foto, a mais atual, estou gorda, de fato, e de biquíni, veja só, meu primeiro que tive desde os 18 anos, que ainda não botei em uso por falta de praia perto e amigos com piscina. O fato é que hoje, mais velha e mais gorda, eu me sinto infinitamente mais feliz comigo do que jamais estive, não é curioso?

Eu acho que muito disso vem do fortalecimento que o feminismo tem me dado e também em conversar com tantas mulheres incríveis e me forçar para romper com a ideia de que somos competidoras, em ter amigas, em me respeitar mais, sabe? Vendo as minhas fotos, apesar de antes mais nova e magra, consigo me amar mais hoje por ter marcas, por ter optado em ser como sou, hoje eu sou assim por escolha minha.

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Com 19 anos e com 34 🙂

Eu nunca quis ter filhos, nem pensava sobre isso, a ideia me assustava muito, mas hoje, às vezes penso que até gostaria de ter e penso se fosse uma menina, gostaria de ensinar algumas coisas pra ela, coisas que eu gostaria que tivessem me falado quando era mais nova.

Queria explicar pra ela que mulher nenhuma tem a obrigação de ser linda, porque mulher não veio ao mundo para ser adorno, mas que ela deveria se sentir assim se quisesse, com todas as particularidades que ela pode ter, além do próprio corpo.

Queria que ela soubesse que pode ser gorda, magra, ter estria, ter peitão, ter peitinho, quadril largo, bunda pequena, que pode ter celulite, que pode não gostar de maquiagem ou gostar. Que ela pode ter cabelo liso, enrolado, curto, longo ou ser careca. Que ela pode ser o que quiser, inclusive ser linda.

Queria contar pra ela que mulheres não são competidoras natas, que não precisamos guerrear uma com as outras, queria que ela entendesse que uma das coisas mais bonitas que existe é a amizade entre mulheres, aquela que te acolhe, que te conforta e que te entende pela igualdade.

Queria que ela entendesse que o sexo é bonito e que é algo livre, para se fazer quando tem vontade e não ser usado como moeda de troca. E que acima de tudo, que sexo só é bom quando é bom para todos que estão fazendo.

Queria que ela entendesse que o corpo evolui, que envelhecer é uma sorte e não azar, que o tempo traz muitos benefícios, como o reconhecimento de si mesma na própria pele.

Queria que ela soubesse dessas coisas, mas, se fraquejasse e não conseguisse acreditar nisso sempre, que tentasse se lembrar de apenas uma verdade fundamental, a de que toda pessoa pode ser o quiser e que esta é única obrigação de qualquer um no mundo.