Gratidão coisa nenhuma

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“Blow horn” ou simplesmente “Buzine”

Quando cheguei em Delhi as primeiras sensações e pensamentos foram de medo e que não iria conseguir lidar com a Índia, que tinha cometido um erro, que tinha me enfiado na maior furada, que fui besta de achar que conseguiria viajar por aquele país. O que mais me ocorreu foi que eu era fraca demais para aquilo tudo, que tinha me superestimado, que não daria conta, que eu falharia.

Resiliência, a palavra tão usada na psicologia, aquela que eu escutei uma vez da minha primeira psicóloga e que me fez entender que problemas sempre existirão e que a grande sacada é como lidamos com eles.

Ok, pensei, preciso achar um jeito de ficar aqui, afinal, minha passagem de volta é só daqui 34 dias e eu também não me deixaria desistir, mas vontade tive sim, porque o medo congela e foi o que eu senti, nem farei a besteira de negar. André firme do meu lado, nessas horas ter alguém que a gente confia perto é bom demais, para mim foi essencial.

Antes de embarcamos, eu e o André lemos muito sobre a Índia, tudo o que achamos, guias, golpes, formas de locomoção, hospedagem, como se vestir, como se comportar e mais um monte de coisas. Em muitos as mesmas palavras “nada te prepara para Índia”. Pensávamos, será? Porque as pessoas tendem muito a aumentar as coisas, sobretudo porque rola o lance de se vangloriar por alcançar algo difícil, então fomos nessa linha de pensamento e nos engamos brutalmente.

Pelas ruas vacas, bodes, macacos, tuk tuk, carros, motos, gente, muita gente, mas muita gente. Cheiros, todos os cheiros. Você anda e sente cheiro de masala, chai, merda, comida estragada, curry, incenso, suor, xixi. Anda mais um pouco e sente cheiro de flores, anda mais e vem cheiro de comida, um cheiro maravilhoso, um pouco a frente e toda espécie de temperos, pimenta em pó que entra no nariz e faz os olhos arderem. Tem também fumaça, poluição, pó. Tem cheiro de doces, de iogurte, de terra. A Índia tem cheiro e tenho pra mim que nunca sentirei o cheiro de lá em nenhum outro lugar, é particular demais.

Lá também é um país ausente de silêncio. Buzinas incansáveis, orações, gritaria, música, vacas mugindo, passarinhos enlouquecidos (o mais barulhentos que já escutei na minha vida), crianças espoletas que gritam coisas que não dá para decifrar, vendedores insistentes te abordando o tempo todo.

Uma boa palavra para a Índia é “muito”. Lá tudo é muito. Quase não encontrei sutileza alguma nesses meus dias e sendo honesta acho que nem combina mesmo.

Muitas pessoas, muitos carros, muitas motos, muitos animais, muito lixo, muitas cores, muitos sabores, muita pobreza, muita beleza, muita alegria, muita tristeza.

A Índia é o país do excesso e no meio de tantos ‘muitos’ eu me senti pouca, fiquei aterrorizada nos primeiros dias, talvez reflexo por notar minha pequeneza num país tão grande e depois fui ficando mais acostumada, embora acho que nunca deixarei de me surpreender.

Nada mesmo te prepara para Índia, a não ser a própria Índia. Não digo isso para me vangloriar, eu juro. É só uma constatação bem simples e aquele aviso para quem um dia deseja conhecer. O que recomendo fortemente, é um país de uma personalidade marcante, não tem como ficar indiferente, não consigo acreditar que possa existir alguém que foi para lá e ficou apático.

Você pode odiar e não querer nunca mais voltar ou você pode amar e pensar em formas de ir novamente. Eu me encontro na segunda opção, quero voltar. Embora, a bem da verdade, preciso admitir que eu não amei tudo, na verdade não gostei de muitas coisas.

Mas nesse ‘não gostar’ eu sempre penso em algo que meu irmão me falou um dia, que devemos nos colocar em situações incômodas, porque é assim que a gente mais cresce, muda e transforma. Quando nos colocamos em lugares que naturalmente não estaríamos, acabamos achando formas incríveis de passar por aquilo.

Eu li a seguinte citação do Amyr Klink, que deve ser clichê, mas que é um pouco do acredito:

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.

E foi isso, eu fui lá para ver se era como eu imaginava.

Não era como eu imaginava.

A Índia é algo que eu não seria capaz de pensar por conta própria, porque falta coerência para mim e pensando em retrocesso, talvez eu não tenha entendido nada por lá, porque todos os meus conceitos não serviram para muita coisa. Eu tive as minhas arrogâncias revogadas e ainda me perturba pensar em algumas coisas, ainda me comove e me faz querer chorar de emoção lembrar de outras.

Não quero que entendam minha palavras como algo espiritualizado na pegada #gratidão, eu acho que falar da Índia assim é pouco e, como eu já disse, o país é do excesso. Gratidão lá é pouca coisa.

 

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Teste

Um teste para ver qualé a desse blog que tá me zuando aqui nas configurações e pegou 6 textos meus e mandou lá pra baixo, no limbo.

Mané.

Eu vou casar

Nunca quis casar, papel, festa, vestido, o baile todo. Nunca. Desde nova eu já tinha pra mim que a ideia e a tradição não se encaixavam bem comigo, fora um leve pavor em ser uma esposa, título que ainda hoje me apavora. Tenho dificuldade com algumas tradições, casamento sempre foi uma. Quando conheci o André, para minha alegria e surpresa, ele igualmente não queria casar, foi um encontro feliz demais.

No último ano resolvemos morar juntos, planejamos, pensamos, poupamos, traçamos planos e enfim colocamos em prática. Um mês antes de mudar, no meio das nossas conversas, surgiu entre nós um “e se a gente casasse?” rimos muito, sobretudo de nós mesmos, pensando em fazer algo que sempre fugimos, que não encaixa bem com quem somos, mas falamos “ah, porque não?” e assim foi, decidimos casar.

Quando liguei no cartório para saber do procedimento, aconteceu um diálogo mais ou menos assim:

– boa tarde, queria saber como faço para fazer uma união civil?
– boa tarde, um casamento você quer dizer?
– ahn… é, isso.
– você é a noiva?
– não, eu só quero fazer uma união civil.
– (respiro impaciente)… então você é a noiva.

Meu deus, pensei, virei uma noiva, mas que porra, a Camila de 15 anos deve estar se remoendo com o andar da própria vida, mas foda-se, a Camila de 36 está meio que rindo da cara da Camila de 15, e na real eu estou feliz porque não aderi às coisas que realmente me incomodam, que não consigo me encaixar.

Amanhã vamos para o cartório de metrô, comigo vou levar meu RG e meu Bilhete Único, símbolos essenciais da minha liberdade em ser quem sou e me movimentar como quero, a decisão em assinar um papel e falar para o Estado que eu estou com o André além de celebrar nosso amor e nossa união, celebra a emancipação de mim mesma, eu sou livre para fazer tudo o que eu quiser, inclusive ir contra o que já fui um dia, mudar de ideia e casar nos meus termos, sem maquiagem, sem vestido, sem alianças, sem grandes arranjos.

Eu vou assinar um papel amanhã com o André e estou bem feliz porque é do nosso jeito, é naquilo que nos encaixamos, é o nosso amor.

2015-03-20 18.52.15

Há 2 anos, na Tailândia, quando ele me convenceu a enfiar os pés num aquário cheio de peixes que comem as nossas peles mortas. Achei apavorante no começo, mas depois ficou ótimo e rimos demais. Acho que o nosso casamento vai ser meio assim, um misto de desconhecido com algo muito bom e às vezes estranho ❤